1 ano, 12 meses e 365 dias

31/12

Era cedo. Não sei ao certo que horas. Estava cansada, possivelmente por conta dos sonhos que inundaram minha consciência sem permissão na noite anterior. Não eram sonhos legais. Eram desconcertantes, e transpareciam meus sentimentos latentes. Eu me sentia exposta. Tudo isso foi o suficiente para sugar minhas energias que deveriam me sustentar no dia seguinte.

Ainda estava na cama, com os olhos semiabertos. O cabelo desgrenhado. A boca seca. O quarto abafado. Deliberadamente, estiquei as pernas e uma cãibra súbita atacou o meu corpo. Por alguns segundos achei que iria morrer. Olha o que a dor faz conosco? Mas o desconforto não durou muito. Voltei a afugentar a vida, como sempre fiz, como se não temesse a morte. Gastei mais um pouco do meu estoque de energia com a ação de levantar e caminhar para fora do meu recinto abafado. Arrastei meus pés vagarosamente até o banheiro. Demorei um pouco para reconhecer uma imagem refletida no espelho. De fato, não era eu, uma versão mais cansada e velha, talvez…. Acho que fiquei alguns minutos encarando aquela garota presa no espelho. Me notei pensando em como seria estar ali, sem poder sair para lugar algum, apenas um reflexo sem identidade. Eu queria ajuda-la, mas ela não parecia querer sair dali. O reflexo não parecia querer mudar o seu rumo.

O café da manhã não estava digestível, pesava no meu estômago como rochas que se recusavam sofrer sedimentação. A televisão noticiava algo tão importante quanto o número de grãos de arroz que tem em um pacote. A tentativa de distração televisiva foi vencida pelos azulejos decorados da cozinha. Girava, ainda sentada, o corpo em círculo imperfeito, tentando acompanhar as flores pintadas nos azulejos que esboçavam apenas falta de vida. Logo, me cansei de girar e notei na minha frente, a minha torrada pela metade e o meu leite, sobreposto por uma camada de nata. Tentei comer novamente, mas eu estava sem energia para isso também. Voltei para quarto e olhava por cima a montanha de livros que adquiri esse ano. Livros que acabei abandonando por motivos desconhecidos. Livros que comprei por puro consumismo. Livros que comecei e terminei sem esboçar sentimentos ou opiniões em relação aos personagens. Músicas que antes me salvavam do estresse, hoje não passam de ruídos irritantes. Planos e mais planos que planejei com tanta veemência deram errado antes de tentar tira-los do evernote. Estou sem energia.  envelhecendo. Novamente perdi tempo. Tempo que não volta. Tempo que não tem paciência e não te espera, apenas segue. Com você ou sem. Mesmo assim, idealizo o amanhã. Não tem jeito. Eu penso em me mexer, mudar o rumo das coisas, tudo para o Amanhã. Mas ele nunca chega. E eu continua aqui. Olhando a garota do espelho.

01/01

-Amanhã…

Foto (editada): Joseph Reid
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